Texto e entrevista por André Rossanez
A cantora Naiá, lança o seu novo projeto “Caetane-se”, onde interpreta com muita personalidade e identidade própria, grandes canções de Caetano Veloso.
Já foram lançadas, as releituras de “Odara”, “Tigresa” e “Não Enche”. Em breve outras músicas serão lançadas para completarem o projeto.

Conversamos sobre a carreira de Naiá, suas versões das músicas de Caetano e sobre música. Saiba tudo que conversamos na íntegra e conheça melhor esta grande cantora.
Portal Me Gusta: Como apareceu a música na sua vida?
Naiá: Sabe no que eu penso? Em Michael Jackson. Porque eu era muito fã dele, eu tinha uma camiseta do Michael Jackson e é engraçado porque na minha época, quando eu era criança, todo mundo achava ele brega e eu achava ele o máximo. É meio louco, mas acho ele foda até hoje, profissionalmente, dane-se o pessoal, não entro nesse lugar. E eu comecei a cantar como toda criança. A gente começa a cantar brincando e dançando, mas aquilo era muito forte e eu sempre senti que a música tava dentro de mim e eu dentro dela, era a mesma coisa eu e a música. Quando você canta é isso mesmo que acontece, o seu instrumento é a voz, então você está compondo com a música. E aí com 6 anos eu comecei a fazer aula de piano com uma professora japonesa, a Mayumi, e como eu sou muito fora de foco e indisciplinada, eu não consegui estudar, sabe aquela coisa? Mas eu sempre fiz aula de piano, fiz aula de iniciação musical na Teca Alencar, que é uma super professora maravilhosa e minha mãe era bailarina, então eu sempre estive nesse ambiente.

Como ela falava eu era ‘filha de camarim’. Então eu sempre estava nos bastidores ajudando em cenário, na produção, ia na 25 comprar coisas para o cenário, aquelas coisas e ela era uma performer. Então ela pesquisou muito som, ela pesquisa até hoje, e isso me me deu muito ouvido e me fez ser eclética musicalmente. Aí com 14 anos eu queria ser cantora de Ópera, porque eu tinha acabado de ficar mocinha, então aquela coisa de hormônios e tal. Eu queria ser cantora de Ópera. É engraçado correlacionar isso, porque parece uma coisa meio histérica, talvez. Mas não foi por isso, eu tava vivendo exatamente isso e queria cantar Ópera e achava o máximo e comecei a fazer aula de canto erudito, de violão e piano, mas nunca fui de estudar muito. E aí com 28 anos, que eu descobri o teatro e aí que eu entendi o que eu sou, que sou performer, mas do que é
musicista, mais do que cantora o, meu lugar é meio de teatro, canto, dança. É meio como minha mãe faz. Uma instalação, que é uma experiência. Eu acredito nesse lugar, nesse ritual mesmo, que quando você vai assistir um espetáculo, um show de música, é uma experiência que a gente tem, é uma instalação. E é performer que eles vão ver e não, uma cantora que vai tentar acertar perfeitamente aquela nota, apesar de tentar sempre. Mas o foco é o todo, o mais importante é o todo e não as pequenas partes. Com o teatro voltei a ter contato com o canto e com a dança e eu fiz uma banda para tocar e ganhar dinheiro, para cantar em casamentos, festa de fim de ano, uma coisa mais corporative de Bossa e Jazz. A gente cantava muito Tom Jobim, que é muito gostoso, muito fodão. E aí há 4 anos atrás eu comecei com esse projeto e essa história de buscar a minha identidade musical. Eu como fui uma adolescente dos anos 80, ouvi muito Depeche Mode e músicas meio pop/indie e eletrônico. Os elementos eletrônicos fazem parte da minha construção e minha identidade musical. E daí, há 4 anos atrás peguei a música “Odara” para tentar descobrir o que saía da Naiá, da minha caixa preta e veio vindo esses elementos eletrônicos, com melodias assim, com uma outra harmonia e saiu isso, que é o resultado dessa miscigenação que tenho, muito esse lado tribal, que é muito indígena e muito afro. Então tem muita percussão, muito swing e muito axé. As músicas todas precisam ter isso para mim . Tenho essa mistura. Eu sou filha de alemão também, o que tem tudo a ver com eletrônico, pois eles são muito hi techs.
Me Gusta: como foi para você fazer a versão de do Cazuza?
Naiá: É muito atual. O cara escreveu tão bem, que eu não precisava escrever de outra forma. É claro que eu tenho o meu lado autoral, mas nesse momento é isso que tá saindo de mim. É um quadro e cada um tem uma interpretação. Você pode ver uma placa e entender o que você quiser e eu posso entender o que eu quiser também, tenho esse direito. O que acontece, é que as pessoas criticam muito quem faz versões, como se a gente não tivesse fazendo música. Não é a história de um cover, a gente não tá fazendo um cover do Caetano, eu não fiz um cover do Cazuza. Eu tô dando a minha contribuição para essa obra. Mas ‘Ideologia’ foi num momento em que eu tive um contato com um cara fantástico, que chama Galopido, que é um artista plástico e um fotógrafo, um cara maravilhoso. E aí conversando com outras pessoas, a gente chegou que eu queria fazer essa música. Ainda mais em São Paulo que é um caos, no que eu acredito? Será que eu preciso ter uma ideologia e quais elas? Hoje em dia, sem entrar no mérito, politicamente é uma questão e a letra inteira é muito atual, hoje em dia. E acho que ainda vai ser por muito tempo. Não é um ponto de vista triste, porque somos lutadores e somos uma certa resistência, com gentileza e fazendo arte. E sobre essa história toda, muitos amigos estão indo embora do Brasil e muita gente indo embora, morar em Dublin para fugir do caos e a gente pensou nisso. “Ideologia, eu quero uma para viver” e Cazuza é fantástico. O clipe tem todo esse caos, que o Gal colocou muito bem. São Paulo é essa coisa, com aqueles prédios lindos da Frei Caneca, da Oscar Freire e Berrini e dos centros comerciais, em que todo mundo vai de terno, todo mundo brilha com seu cabelo e comendo sua marmita de frango e salada e ao mesmo tempo você tem um caos, que é uma bagunça e uma falta de direção. Como a gente tá perdido, é uma menção é isso. Ao mesmo tempo a gente vive nesse caos e quem é sensível demais parece louco, porque a gente, o artista tem muito disso, dessa coisa à flor da pele.

Me Gusta: No projeto com músicas do Caetano Veloso, tem o conceito de que cada música representa uma cor. Como surgiu essa ideia?
Naiá: O conceito é o seguinte. Cada música tem uma cor, porque cada cor tem um significado no chácras, no mundo. Tanto é que tem gente que estuda publicidade e que estuda as cores, porque tem a ver com tudo. E no final das contas, a ideia é de que todos estamos conectados e com todas as cores. Porque todas as músicas têm o lado que você achar que tem, pois cada um é responsável pela sua interpretação. Sou responsável pelo que falo, mas o que você entende é problema seu, não me culpe por sua interpretação. Cada um tem a sua interpretação da música e ntão todas as cores colaboram e estamos todos conectados. Eu fazendo meu trabalho e você escutando, estamos fazendo essa obra juntos. Não fazemos nada sozinhos.
Me Gusta: Como foi escolher quais músicas do Caetano Veloso iria gravar?
Naiá: Foi babado, porque Caetano foi a estrada de muita gente. Ele é um cara que é uma figura até assim, a gente não imagina ele andando aqui. Minha mãe escutou muito Caetano e eu escutei muito na minha infância e faz parte da minha cultura e da minha construção. Então foi muito difícil escolher as obras, porque ele tem muita coisa. Ele tem uns 42 álbuns e seria uma prepotência e uma arrogância achar que eu iria pegar as melhores. Foram as que estavam mais orgânicas, mesmo. No show que fiz ano passado e que chamava ‘Vozes Em Mim”, eu cantei “Tigresa” que diz muito para mim e a música que comecei esse trabalho de identidade musical foi “Odara”. Então falei “cara vamos assumir que estamos Caetaneando e vamos fazer um EP do Caetano?”. O cara é foda. Foi por isso, foi bem natural.

Me Gusta: Como gravar o clipe de “Tigresa”?
Naiá: A referência do clipe era a fêmea para mim. E a cor é amarelo, que é o plexo solar e a coisa da sabedoria, da rapidez e do extinto da tigresa bicho e da fêmea.no clipe a gente colocou bem esse contraponto então tem aquela que é mais Punk com essa referência das botas de vinil e da Patti Smith. Você vê que a maquiagem de “Tigresa” é bem Patti Smith, bem Dark. Então tem esse lugar urbano. Aquele muro de grafite. E é como se essa mulher quisesse entrar nesse grafite e o grafite saísse. Uma coisa sai da outra, eu tava sentindo isso no clipe. E tem esse lugar mais iang, que é a rua, o punk, o ácido e a bota pesada. E tem aquele lugar mais embrionário, uterino, que é o lugar onde eu estou, oo icosaedro, o mesmo onde minha mãe dança. E gente tem quantos lados? O icosaedro tem vários lados e é bem isso. Tem aquele lugar mais delicado, do ing, em que você pensa, e tá germinando e o lado mais rua, em que a gente se mistura mais, mesmo. Tem que ter cuidado para onde a gente vai, porque a gente é tudo isso.
Me Gusta: Como foi passar do erudito para o popular? Foi difícil?
Naiá: Eu percebi, que pra mim, eu eu tava meio que me escondendo no canto erudito. Quando você passa na frente de uma casa de ópera, de um teatro, você não identifica qual que é a cantora, porque tá tudo num registro. E quando você canta popular, você coloca mais a sua voz mesmo e a sua personalidade e tem que bancar isso. Então não é difícil. O que achei difícil foi fazer aula de canto popular. Geralmente eu tinha dificuldade de não ir para garganta, então eu fazia aula de canto popular e ia para garganta e me machucava. É difícil achar uma fonoaudióloga, alguém que tem essa técnica que faz você cantar com as suas vísceras, com o peito e com a cabeça. Foi difícil para mim achar uma pessoa que tinha essa compreensão integral do corpo e que ia tirar da garganta e ao mesmo tempo me dar uma voz cantada e falada.
Me Gusta: Você fez faculdade de Economia. De alguma forma isso influenciou na sua carreira?
Naiá: Se se eu não tivesse feito economia e não tivesse trabalhado em escritório, eu tava fudida. Já sou tão louca e trabalhar no escritório foi muito bom, porque entendi que o mundo tem uma outra velocidade e eu fui buscar essa história de economia, porque eu não queria ter a mesma vida instável economicamente que a minha mãe teve. Você tem que fazer um milhão de coisas para poder fazer a arte. fiz muita coisa para poder sobreviver e fui buscar a economia pois queria achar uma estabilidade. Hoje vejo também que a Naiá é um produto. Quero ser aceita e criar demanda. Eu entendo que o patrimônio do artista é um pouco público, sim. Tenho que criar demanda e não tô fazendo música só porque acho bonito, também porque quero sobreviver financeiramente. sou capricorniana e essa troca com o mundo e com a matéria tá muito clara para mim. Tenho privilégio de dormir numa cama, tomar banho, tomar café e acho que também a minha obrigação é gerar emprego. Então nisso a economia me ajudou muito, me deu um chão.

Me Gusta: Ao fazer algo autoral, quais são suas inspirações?
Naiá: Eu mesma, a minha vida. Tem que ser o mais verdadeiro possível. Foi criada como negra. Sou filha de afro, de índio e o lado da minha mãe é todo albino, loiro de olho azul, austríaco. Então fui criada como minoria mesmo. Albina falei de maldade mesmo. Do mesmo jeito que eu escutei muito, muitas vezes fiquei com raiva dos brancos. Fui criada nesse meio e naquela coisa de escola de “se você for de preto, vai estar transparente”, “olha tem alguém fedido aqui”. Sempre era eu. Tinha um bullying é muito chato. Tem essa coisa meio deprimida, mas é uma superação. Sou muito forte, uma guerreira. Não paro e não tem um dia na minha vida em que não tô pensando em alguma coisa de música. Tô sempre pesquisando e ensaiando. Nada do que aconteceu de mal tira o que quero de bom para mim. Sou a maior fonte para compor mesmo. As minhas dores foram algumas e o interessante, é que dá para ver de vários pontos de vista.
Me Gusta: O que você diria para os cantores que estão começando agora?
Naiá: Muita força. O mercado abriu bastante. Assim como todos os trabalhos, tem sua fase de ‘estágio’, então tem que ser sub em vários lugares para você tocar e ter força. Eu acredito, que tem um nível de qualidade do artista que só acontece se a pessoa for ambiciosa. Se a pessoa não quiser ficar, permanecer, não aguenta porque o mundo é mau. Tem gente que paga 20 para você não ganhar 5, no mundo da música tem isso do ego. então fazer arte porque ama é o principal. Mas você tem que ter uma força de guerreira.

Ao conversar com Naiá, pude conhecer uma mulher e uma cantora forte e cheia de personalidade. Alguém que nos inspira através de sua trajetória, de seus pensamentos e de sua arte.
É muito legal a forma com que ela vê a arte e as coisas do nosso cotidiano. Além de muito verdadeira, Naiá é muito simpática e carismática e mostra a todo momento, através do brilho dos olhos, o amor que sente pela música e por poder tocar o coração de tanta gente.


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