EP “Desafogo” – Faixa A Faixa

Está entre nós, “Desafogo”, EP de Gustavo Ortiz que reúne composições feitas ao longo de 16 anos.

O projeto marca a estreia de Ortiz em gravações autorais e começou a ser gestado em 2009 e foi retomado em 2023, após um encontro com o cantor e compositor Romulo Fróes.

A seguir confira o faixa a faixa do EP:

Trago: A faixa se inicia com um saxofone preparando o clima para a entrada de um riff de violão que desemboca numa batida com influência de João Gilberto e um cavaco executado menos como função harmônica do que como uma lança certeira que atravessa a canção e pontua acentos, ou uma agulha rija costurando seu tecido, um pouco como algumas guitarras do Radiohead. Além da conga tocada por Daniel Antonio, que já apresenta a importância da percussão no meu trabalho e as influências das matrizes rítmicas africanas. A letra curta flutua num jogo semântico em torno da primeira pessoa do singular dos verbos trazer e tragar, como uma ode ao prazer de cantar o que já trazemos em nós e o que tragamos do mundo para dentro de nós. Quando a letra se repete, um pandeiro chega para marcar a intensificação tanto dos vocais quanto dos instrumentos, especialmente do cavaco, que acentua suas flechadas e agulhadas, e do saxofone, que delineia o caminho da canção e então finaliza com um solo com influências de John Coltrane enquanto se ouve como algo quase distante: “Tanto faz o que trago, se vem chegando um trago a mais”.         

Desafogo: Faixa título do EP, composta em 2009, quando eu tinha apenas 21 anos. É minha canção mais antiga a ser gravada e também aquela que me despertou a atenção para uma autenticidade em minhas composições, que até então não passavam de cópias dos músicos que ouvia. “Desafogo” gerou também um videoclipe. A faixa traz uma introdução com uma levada de violão com influências de Baden Powell que subitamente se transforma em uma espécie de samba-canção, acompanhado por flautas e percussão ambientando a canção, além de um cavaco com efeitos. A letra começa por narrar imagens de um cotidiano estafado e afogado na estagnação para então chegar em pitacos que devem soar não como opiniões julgadoras, mas como conselhos sussurrados ao pé do ouvido, com o intuito de cantar que haveremos de criar nossos próprios desafogos, individualmente e coletivamente. O arranjo acompanha a crescente da canção, especialmente a percussão, o coro que enfatiza o caráter coletivo da mensagem e o saxofone que lança o convite para uma dança insubmissa: a dança cotidiana que permite criar os desafogos.         

Casca Cascata: Parceria com Thiago Ribeiro, poeta e esquizoanalista. A letra de Thiago tem apenas duas orações, que quando pronunciadas soam exatamente iguais, mas com significados diferentes e complementares (A casca tá dentro, que caiba tendo / uma cascata dentro, que cai batendo). Apenas um violão acompanha a melodia das frases que se repetem numa crescente e decrescente, buscando destacar cada sílaba a fim de atentar para a mensagem central da canção: as cascatas que trazemos dentro de nossas cascas e que precisam ser desafogadas para que possam correr livremente. A faixa funciona como um interlúdio do EP, o que é realçado pelo efeito e timbre escolhidos, imprimindo a sensação de uma enunciação de um narrador mais etéreo.    

José, João: “José, João” é um samba urbano com nuances de samba-baião e uma forte influência do partido-alto nos refrões. Na faixa, tive o prazer de dividir os vocais com Romulo Fróes, por sugestão dele, inclusive, o que me deixa honrado. O cavaco do Rodrigo (Campos) é crucial na condução da narrativa com frases melódicas que dialogam com a mensagem da canção, enquanto tamborim, pandeiro e surdo sustentam a base rítmica com sutileza e tensão. O violão traz a cadência bem marcada do samba tradicional, reforçando o caráter coletivo da canção e convidando os instrumentos a jogarem em favor da letra. A canção começou a ser escrita em 2022, no ano seguinte à morte de meu pai. Caminhoneiro, zagueiro de futebol de várzea e amante de palavras-cruzadas, ele começou a trabalhar aos dez anos e se aposentou pouco antes de falecer, durante a pandemia, poucos dias antes de tomar a vacina. A canção nasceu desse luto e também das memórias dos trabalhadores da minha família — com boias-frias, professoras da rede pública, pedreiros, operários etc. Então a letra foi construída a partir dessas lembranças pessoais, mas também de referências literárias (algo sempre presente em meu trabalho), pois em 2024, li o livro “O que é meu”, de José Henrique Bortolucci — também filho de caminhoneiro. A obra reforçou em mim o desejo de cantar sobre essas vidas que muitas vezes passam despercebidas, as vidas desses trabalhadores, a partir de meus entes próximos, ainda que o título faça referência a nomes comuns, escolhidos para representar uma coletividade. Ela é a tentativa de contar a história de dois personagens que são, na verdade, a de tantos e tantos trabalhadores. Neste EP, ela é a que mais revela minha formação em Ciências Sociais e Antropologia, por conta do tema, e sinto que ela toma outra proporção em tempos em que o trabalho com carteira assinada virou motivo de deboche entre jovens, e num momento em que a redução da jornada de trabalho voltou a ser uma pauta relevante no debate público.

Botafé: Foi a faixa escolhida para fechar o EP, ela também traz o tema do desafogo, embora de um jeito mais velado, até mais enigmático, e um pouco apoteótico no final, o que senti que fazia sentido pra terminar o EP. É uma canção com tempos um tanto quebrados, em 5/4, 9/8 e que desembocam em “refrões” – que não são bem refrões pois não se repetem –  em 6/8, um tempo bem característico do candomblé e de outras matrizes rítmicas africanas. A letra tem também um quê de conselho sussurrado (“Bota fé no ser”), para então criar imagens não convencionais, sugerindo que esse botar fé no ser diz respeito a modos de ser desviantes que podemos criar (“Ser a dança nos varais / Ser ruído em recitais / Ser esquina a batucar/ Ser batuque em pleno altar”), essas brechas de existência que criamos e nas quais podemos ser outras coisas. Como a literatura exerce grande influência em minha escrita, essa letra surgiu durante um exercício de escrita em fluxo de consciência realizado em um curso da atriz e escritora Letícia Bassit. Tanto o saxofone do Thiago (França) quanto o coro (Bruna Lucchesi, Mari Tavares e Tati Burg) foram cruciais para dar o tom quase apoteótico do final da canção, uma apoteose que diz respeito, assim como todo o EP, não à narrativa dos vencedores, mas sim dos desacreditados que ainda buscam seus desafogos. Como uma ode épica ao triunfo do desejo dos oprimidos e de uma coletividade por vir.

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