Vinis De Engenheiros do Hawaii

Universal Music apresenta as versões em vinil  de dois álbuns de Engenheiros do Hawaii.

Os discos “10.000 Destinos – Ao vivo” (2000)
e “Dançando No Campo Minado” (2003), estão à venda na loja online da gravadora.

Gravado no antigo Palace, em São Paulo, durante a turnê de “¡Tchau Radar!”, e lançado em Junho de 2000, “10.000 Destinos – Ao vivo” foi o terceiro álbum ao vivo da carreira da banda. Àquela altura, o grupo somava 15 anos de estrada, contando com apenas um integrante original, Humberto Gessinger. A
decisão seguia um padrão adotado pela banda, de registrar um disco ao vivo após cada quatro trabalhos de estúdio (uma homenagem assumida ao trio canadense Rush, que construiu a carreira assim). Poderia ter caído na redundância em termos
de repertório, mas com os Engenheiros as coisas sempre são peculiares e mais interessantes.

O álbum traz quatro faixas de estúdio, que, na edição original, em CD duplo, estavam isoladas no CD 2 e, nesta edição, pela primeira vez em vinil, fecham o lado B do segundo disco. Duas delas são composições inéditas bastante inspiradas, “Números” e “Novos Horizontes”. A primeira, com uma linda frase de Santo Agostinho repetida no refrão (“a medida de amar é amar sem medida/ velocidade máxima permitida/ a medida de amar é amar sem medida”), é um emocionante
objeto de culto entre os fãs.

“Novos Horizontes”, por sua vez, acabaria sendo valorizada como faixa-título de outro trabalho ao vivo, “Acústico: Novos Horizontes”, registrado em 2007, também em São Paulo. As outras duas faixas de estúdio são regravações surpreendentes. Uma resultou em versão revigorada de “Rádio Pirata”, do RPM,com direito a participação do ex-líder do grupo, Paulo Ricardo. Na época, Humberto Gessinger disse que, em princípio, lhe soava “meio incestuoso” trabalhar com um colega de geração, cantando com os maneirismos característicos dos anos 1980, mas contou que Paulo acabou entregando tudo exatamente daquele jeito esperado.

Já “Quando o Carnaval Chegar”, de Chico
Buarque, é a faixa de encerramento. Tensa e concisa, menos de 80 segundos, ela acrescenta um travo rock’n’roll ao recado do gênio da MPB nos anos de chumbo. Mas esses são apenas os aditivos à obra: este álbum é cultuado por registrar ao
vivo uma poderosa formação do Engenheiros do Hawaii, admirada pelo punch com que apresentava os hits e os clássicos do grupo. Poucos trabalhos live do rock nacional têm essa pressão.

Com certas bandas, a história nunca termina. Há sempre algo a ser redescoberto, reavaliado e ouvido novamente com mente e coração abertos, no tempo certo. À época do lançamento original, em 2003, “Dançando No Campo Minado” foi entendido como continuação coerente do vibrante “Surfando Karmas e DNA” (de 2002). Com onze faixas e enxutos 32 minutos, o 12º álbum da carreira dos Engenheiros do Hawaii é um belo exercício de concisão e contundência.

Na linguagem do bom e velho jornalismo rock’n’roll, poderia ser definido como um trabalho curto e grosso, não fosse “grosso” uma palavra nada condizente com o nível de rigor e elaboração lírica das composições do grupo. Seu repertório tem
pelo menos uma canção, “Outono em Porto Alegre”, a faixa de encerramento, que pode ser incluída na prateleira premium da produção de Humberto Gessinger.

A ótima “Dom Quixote” e a radiofônica “Até o Fim” também se destacam, não por acaso seriam revisitadas no “Acústico MTV”, de 2004. No seu todo, “Dançando No Campo Minado” é um disco de muita energia e de certa aproximação com a urgência do Punk Rock, favorecida pela formação com Paulinho Galvão na guitarra, Bernardo Fonseca ao contrabaixo e Gláucio Ayala na bateria, cabendo ao líder Humberto se ocupar de voz, guitarra, harmônica e teclados.

Ele ficou situado historicamente como uma espécie de despedida, como derradeiro trabalho de estúdio dos Engenheiros e último álbum só de músicas inéditas. Mas é uma obra inspirada e pra cima, em que as letras afiadas com o traço autoral de
Humberto encontram um match perfeito em um punch poucas vezes atingido pela banda (Paulinho Galvão, coautor de quatro músicas, tem muito mérito nisso). Logo na abertura, a poderosa “Camuflagem” chuta portas e bundas, serviço
complementado por outros três “rockões” movidos à bons riffs e ritmo acelerado: “Duas Noites no Deserto”, “Rota de Colisão” e a faixa título, talvez o mais próximo de um exercício ramônico/ramoneano no cancioneiro da banda.

Recuperando o que foi feito em “A Revolta dos Dândis” e “O Exército de Um Homem Só”, “Segunda Feira Blues”, parceria com Carlos Maltz, é apresentada em partes I e II. A primeira tem versos ácidos e reluzentes. E a parte II, uma alegria para os velhos fãs, os vocais ficam a cargo de Maltz, baterista da formação clássica do grupo, que vivia um momento de reaproximação (tinha
participado também de “E-Stória” no álbum anterior, “Surfando Karmas e DNA”). A pessoal e intransferível “Na Veia” é uma joia que remete aos melhores momentos de Erasmo Carlos.

“Fusão a Frio” documenta, sob o sempre arguto olhar gessingeriano, o histórico momento em que indústria da informação e indústria da
música estavam se casando, com perspectivas de relacionamento abusivo. No encerramento, embalada em dinâmica persuasiva, “Outono em Porto Alegre” oferece lenitivo rock e final feliz para todos os ouvintes, mesmo aqueles que nunca
passaram perto da capital gaúcha.

Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑